Uma conversa sobre maternidade e carreira com Lia Quinderé

O fazer de um chef pâtissier é sobre certezas. Parte da receita pronta, da regra clara. Ingredientes se misturam numa composição química que resulta em textura, sabor e sensação. Há um quê de intuição, mas em grande parte é convicção. Diferente da gastronomia, na maternidade as certezas são nulas. Talvez seja mais sobre o caminho e menos sobre o resultado final. A analogia, que opõe ser mãe e o exercício de um ofício, é desmistificada pela prática de Lia Quinderé. 

A empresária, que é o rosto e a alma da Sucré Pâtisserie, não vê a maternidade e a vida profissional como pólos antagônicos, tampouco conflitantes. Suas jornadas como mãe e empreendedora estão intimamente ligadas, tanto que gestou sua primeira filha, Rafaela, hoje com 14 anos, em paralelo com a sua empresa. A chef ainda é mãe de Nina, de 9 anos.

Essa conversa, como não poderia deixar de ser, é sobre maternidade, mas também sobre carreira e sociedade. No mês das mães, Lia nos apresenta um jeito de ser mãe que dialoga com as questões do dia-a-dia e que, ao invés de dividi-la, multiplica essa profissional de talento. 

 

Lia, conciliar maternidade e profissão ainda é um desafio? 

Esse é o grande desafio da mulher, né? Da mulher que é mãe. Desde o início, tenho como pilar central que as minhas filhas e a minha família vão ser sempre prioridade. O trabalho não pode ser o centro da vida da mulher, ele é um meio de vida, uma via. A gente precisa caminhar por essa via, entendendo que em algumas horas serão necessárias paradas para conseguir viver. E eu acho que a maternidade faz parte desse viver. Dito isto, eu sempre entendi que ter filhos não poderia ser um impeditivo profissional. 

 

Como a empreendedora influencia na vida da mãe? E como a mãe influencia nas decisões da empreendedora?

Trabalhar, com certeza, exerce uma influência muito grande. Principalmente na construção do que minhas filhas vão ser. Sou mãe de duas mulheres. Tenho certeza que levo esse exemplo pra casa, de luta, de empoderamento da mulher, da construção da mulher e do seu papel na sociedade. Então com certeza isso influencia na minha maternidade, como figura feminina e em como quero que elas entendam o que é ser mulher. Já no meu trabalho, acredito que sim também. Embora, às vezes, exista essa impressão que as mães não vão cumprir o papel profissional de forma completa, eu acho que o “ser mãe” ensina muito à mulher sobre como ser melhor profissional. A maternidade exerce um papel de construção de valor. A mulher mãe é um tanto forte, um tanto doce. E esse equilíbrio é muito importante para o profissional.

 

Na sua fala, a gente percebe que sua carreira é uma área muito importante da sua vida. Que caminhos te levam à gastronomia?

Comecei a cozinhar muito nova. Minha mãe é artista plástica e meu pai empreendedor. A gente sempre ficava com uma tia-avó, eu e meus irmãos, que cozinhava muito bem. A minha diversão à tarde era cozinhar. E isso ficou como uma diversão, até porque não existia a ideia dos chefs. Não se falava disso. Como não tinha certeza do que fazer, acabei fazendo direito. E rapidamente, comecei a perceber que o direito não me fazia pular da cama feliz pra trabalhar de manhã, como meu pai tinha me ensinado. Trabalhei no Fórum, depois como fotógrafa. E foi então que fui convidada para trabalhar no administrativo de um buffet, que era de uma pessoa da família. E me voltei imediatamente pra cozinha. Tranquei o direito, e fui atrás de um curso de gastronomia que eu pudesse fazer. Encontrei o da Le Cordon Bleu, em Paris. 

 

E a Sucré?

Depois que fiz o segundo módulo, voltei e comecei a trabalhar. Até porque precisava trabalhar pra me preparar financeiramente para voltar e fazer a outra parte do curso. Eu era fotógrafa, como eu falei, e eu fotografava os doces e publicava no Orkut, que era a rede social da época. Eu fazia os doces na cozinha da minha casa. Até que fui convidada para abrir um pequeno café dentro de uma loja de presentes. Foi aí que nasceu a Sucré. Daí foi crescendo e foi ficando difícil fazer na minha cozinha, até que montei uma cozinha na garagem de uma tia minha. Então chegou o momento que não deu mais e eu aluguei o primeiro ponto da Sucré em 2008. A inauguração da loja foi 6 meses depois do nascimento da Rafa. 

 

E como era esse mercado em que você lança a Sucré? Você já se sentiu de alguma forma desacreditada?

Tive dois grandes desafios dentro da profissão. Primeiro, foi criar a cultura da pâtisserie, que não existia. A outra dificuldade é ser mulher, chef e nordestina. São dois aspectos vulneráveis. Hoje até tem um pouco mais de mulheres, mas a gastronomia ainda é muito masculina. Já sobre ser nordestina e ter conseguido me destacar nacionalmente, acho que minha formação e o reconhecimento de prêmios nacionais foram quebrando isso. Quanto ao mercado, teve também o Fartura. Me lembro que fui convidada, em 2014, para participar do festival, em Belo Horizonte, e achei bem bacana. Na época, era colunista da Tribuna Band News e surgiu a oportunidade de fazer um festival de gastronomia em parceria com o Iguatemi. Eu topei o convite e trouxemos a ideia do Fartura para Fortaleza. E foi muito importante, porque esse movimento fez com que a gente desse muita voz para a gastronomia do Ceará, inclusive para transformar a gastronomia em política pública, porque antes não existia uma pasta de gastronomia no Governo do Estado e hoje já existe. 

 

Bem, nós já falamos sobre maternidade e sobre sua carreira, mas como a cidadã Lia Quinderé tem se movimentado?

Tenho total entendimento que a gente tem um papel importante como empreendedor, como empresário, de gerar algum tipo de impacto social com o nosso trabalho. Até mesmo porque eu tenho ligação com o terceiro setor desde os meus 16, 17 anos. Sempre busquei um propósito pra Sucré. Isso, embora a gente sempre tenha feito ações paralelas, como o sopão, que é toda quarta-feira, para as pessoas em situação de rua, fazemos também as doações das cascas de macaxeira, que vira ração para gatos. Mas não tínhamos nem uma ação forte voltada para o impacto social de fato. E agora nós estamos fazendo esse mergulho, construindo esse caminho, voltando o olhar para mulheres, mães, em situação de vulnerabilidade social. 

 

Você parece muito bem resolvida com os diferentes setores da sua vida. Até chegar a essa consciência que caminhos você percorreu?

De fato, é um caminho. Sempre que nasce um filho, nasce uma mãe. E nem todo mundo pensa como eu penso e tá tudo bem. Há quem priorize outras coisas, mas realmente fui compreendendo, de acordo com as dificuldades que iam acontecendo. Já tive momentos em que, por exemplo, não pude estar tão presente quanto gostaria. E claro, isso veio acompanhado de culpa. Já houve tempos em que me doei mais ao trabalho. E entendo que isso é natural. Mas assim, chega um momento que a gente tem que tomar consciência de que nós não vivemos para pagar contas. A gente tem que fazer o que faz a gente feliz também. E fazer disso prioridade.